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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A Ana e os iogurtes

Respigar é mais do que um estado de espírito ‒ é um estilo de vida! Tem a ver com a maneira como encaramos o mundo que nos rodeia e o espectro da nossa ação sobre ele. Pondo as coisas em termos simples, há dois tipos de pessoas: aquelas que, quando não há, se queixam; e aquelas que, quando não há, fazem! As do segundo tipo são as criativas, as desenrascadas, as que transformam problemas em projetos; as que estão terminantemente convencidas de que não há modelos perfeitos, formas finais: tudo (ou quase tudo!) é passível de reinvenção, renascimento.

Há pessoas que já nascem com esta atitude, e a mantêm toda a vida, e há outras que descobrem essa faceta de si mesmas por uma ou outra vicissitude. Quer num caso, quer noutro, penso que, quando há filhos/as, essa capacidade (esse talento!) para o "desenrasque" se potencia exponencialmente. Todas as mães movem montanhas pelas suas crias, mas as mães criativas fazem-no com um toque especial: com mais calor, com mais intenção, com mais vontade de mudar o mundo!

Eu e a Ana já nos conhecemos desde que éramos bem pequenitas; andámos juntas no ballet e fomos colegas de Escola durante muitos, muitos anos! Entretanto, deixámos ambas a terra-mãe, e ela já viveu um pouco por toda a Europa, à medida que ia avançando na sua formação. Há 16 meses, foi mãe da Filipa, e é a partir de Itália (onde vive atualmente com a família) que contribui com este post sobre iogurtes. Quem diria que os iogurtes seriam uma fonte de nostalgia, estando fora de Portugal?! Fiquem a saber mais, pela 'voz' desta mãe e mulher criativa!



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Várias são as “pequenas” coisas que nos lembramos que existem e que nos fazem muita falta, quando não as temos por perto. Sendo eu praticamente uma rapariga do mundo, tendo já vivido no estrangeiro, em alguns países, por períodos curtos e longos da minha vida, apercebi-me que existem várias coisas às quais estamos habituados no nosso dia-a-dia e que nos fazem muita falta. Uma delas é a comida, ou produtos alimentares (inclusive, de determinadas marcas) imprescindíveis! É o caso dos iogurtes. Sim, iogurtes… Existem em todo o mundo, é certo (bom, talvez não haja tanto na China, dado o elevado número de chineses intolerantes à lactose), mas por alguma razão, em Portugal somos grandes consumidores de iogurtes de aromas, de consistência firme, e que existem "aos montes" nos supermercados. Estes iogurtes são uma espécie rara em vários países da Europa, nomeadamente França, Suíça e Itália (por onde já andei). Por acaso, nem sou muito esquisitinha no que diz respeito à comida, mas nos iogurtes apercebi-me que sim, sou… seletiva! E só me apercebi o quão fã sou deste tipo de iogurtes quando emigrei! Ainda fiz várias tentativas com outros iogurtes semelhantes, outros cremosos (como, por exemplo, os da Activia, que existem em muitos países). Outra curiosidade é que iogurtes magros é também algo pouco comum. Aqui em Itália, não há grande variedade de marcas nem de estilos, consomem essencialmente iogurtes gordos ou intero (yuck!).
 




Desta forma, senti que devia fazer algo quanto à minha necessidade urgente de comer iogurtes de que realmente gostasse. Falei com a minha mãe (as mães são poços de sapiência!), pois lembrei-me que antigamente ela fazia uns iogurtes naturais caseiros, e que eram muito bons. Assim foi: ela deu-me a receita, eu segui os passos todos e acrescentei uma pitadinha científica à coisa, e o resultado foi muito agradável!

Hoje em dia, existem várias receitas de iogurtes caseiros, bio-iogurtes, iogurtes com compotas, etc., e muitos sites de onde podem também tirar ideias. De qualquer forma, aqui fica a minha receita:

Ingredientes:
  • 1 litro de leite meio gordo
  • 1 iogurte meio gordo ou gordo
Não precisa ser natural nem “duro”, pode ser cremoso. O natural dá um travo mais amargo, enquanto que, utilizando um iogurte de aromas, como já tem algum açúcar adicionado, irá diminuir a acidez do iogurte. Ao usar um iogurte de aromas, o sabor vai ficar bastante diluído, mas percetível o suficiente para se diferenciar de um iogurte natural, dando um toque ligeiramente açucarado, o que faz toda a diferença. O que se pode fazer para que o sabor fique mais forte é juntar o aroma em bruto (essência). Há à venda frasquinhos de aromas para este tipo de efeitos. Basta juntar uma pequena quantidade (algumas gotas) para o sabor ficar intenso. Mas confesso que ainda não experimentei.
  • 2 c. de sopa de leite magro em pó
Muito difícil de encontrar no estrangeiro. Trouxe de Portugal, claro, da marca Molico. O leite em pó serve para regular a firmeza dos iogurtes: mais leite em pó, iogurtes mais firmes. Duas colheres são suficientes para obter a consistência a que estamos habituados.

Dicas sobre como regular a consistência do iogurte:

http://www.thekitchn.com/better-homemade-yogurt-5-ways-125442
  • 1 termómetro de cozinha
  • 1 iogurteira
A minha mandei vir da Amazon, é muito económica e um bom investimento! A iogurteira serve apenas para o processo de incubação se manter a uma temperatura constante e sem interferências. Existem outras alternativas, mas penso que esta opção é tão barata que não vale a pena procurar mais.

Three Ways to Make Yogurt Without a Yogurt Maker:

http://www.thekitchn.com/crafty-solutions-3-ways-to-mak-125216



Procedimento:

Num tacho, juntar 1 litro de leite com as 2 colheres de leite em pó e deixar aquecer até aos 80º C (aproximadamente), não deixando o leite ferver (ferve aproximadamente à mesma temperatura que a água, 100º C). Não se deve deixar ferver uma vez que isso terá influência sobre a textura dos iogurtes. Durante o processo de fermentação, as bactérias presentes no leite consomem lactose e produzem ácido láctico, o que leva à desnaturação das proteínas e consequente coagulação da gordura do leite. Este passo é fundamental para uma boa consistência dos iogurtes.

Aqui fica um link com uma boa explicação de como acontece o processo da produção do iogurte a partir do leite:
http://cooking.stackexchange.com/questions/32783/making-yogurt-without-heating-milk



Desligar o fogão e deixar arrefecer até aos 40-45º C.




Juntar o iogurte ao preparado e misturar levemente. Colocar o produto final nos frasquinhos de iogurte e deixar a iogurteira ligada durante 8-10h. Normalmente, faço este processo à noite, para que os iogurtes estejam prontos de manhã. Ao fim das 10h, deve-se colocar os iogurtes no frigorífico para parar o processo de fermentação e não gerar acidez. 




Eis o resultado:





Receita alternativa para iogurtes magros:
- 1 iogurte grego
- 1 litro de leite magro
- 2 c. de sopa de leite em pó

Se usarmos um iogurte magro e leite magro, os iogurtes não ficam com aquela consistência firme que se pretende; a gordura do leite, aqui, é muito importante. Vai daí, experimentei um iogurte grego (dica do Marido, confesso!), que é bastante gordo, e o resultado foi uma bela surpresa. Saboroso e… magro ‒ ou menos gordo...! :D

Como, por vezes, algumas tentativas de fazer iogurtes caseiros podem correr mal ‒ podem não ficar firmes ou parecer estragados (e talvez possam estar!) ‒ aqui ficam algumas dicas de como resolver a questão:
http://www.kitchenstewardship.com/2012/06/01/what-did-i-do-wrong-the-definitive-homemade-yogurt-troubleshooting-guide/

Enjoy! ☺
Ana

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Às compras em grande estilo!

Desde que começaram a cobrar preços exorbitantes pelos sacos de plástico nas grandes superfícies, muita gente começou a optar por levar os seus próprios sacos de casa, quando vai às compras. Na verdade, a reutilização dos sacos de compras já não era novidade: por opção ou por necessidade, e mesmo antes da implementação da reforma da fiscalidade verde, já muitas pessoas reutilizavam os sacos que traziam dos supermercados. No entanto, e até recentemente, estes eram mais frágeis e, por isso, com reutilizações limitadas. Hoje em dia, também já dispomos, em algumas cadeias de supermercados, de opções como os sacos de papel e os sacos (grandes) de ráfia de polipropileno.

Para as pequenas compras do dia-a-dia, costumo optar pelos sacos de pano: esteticamente, acho-os mais bonitos; por outro lado, são também resistentes, maleáveis e laváveis, sendo possível tê-los sempre por perto (na mala ou mochila), mesmo quando a visita ao supermercado não foi planeada com antecedência.


Este saco já me acompanha há vários anos, e já fez muitos quilómetros na minha mala! É prático e resistente, e facilmente vai a lavar na máquina, no meio da roupa de cor. Tem, no entanto, a meu ver, três pequenos "defeitos":

1. Sendo o típico tote bag, está construído em 2D, ou seja, quando é necessário transportar algum objeto mais volumoso (por exemplo, uma lata de feijão ou grão das maiores), perde em altura o que é necessário para o fundo;
2. Tem as alças um pouco compridas, o que faz com que, por vezes, arraste no chão (especialmente ao subir ou descer os passeios);
3. Não tem nenhum sistema que o mantenha dobrado enquanto está arrumado dentro da mala, pelo que às vezes se desenrola, o que o deixa mais exposto à sujidade, e também dificulta a sua remoção da mala.
Para resolver estas pequenas falhas, e pôr em ação a criatividade, proponho-vos um projeto que julgo ser ótimo para quem se está a lançar nas "lides" da costura: um saco reversível, com fundo, e que, depois de dobrado, fecha com um atilho, pelo que pode ser transportado para qualquer lado, sem ocupar muito espaço!

As máquinas de costura são um objeto cada vez mais comum nas nossas casas; das mais variadas marcas e modelos, há para quase todos os gostos e carteiras. Por menos de 100€ já é possível ter uma boa máquina de costura, perfeitamente suficiente para os nossos projetos pessoais ou profissionais (de pequena/média escala). Se, para muitas pessoas, a decisão de comprar uma máquina de costura é relativamente simples, já a entrada em ação costuma levar mais algum tempo. As primeira tentativas podem ser frustrantes, e rapidamente a máquina pode ser arrumada a um canto (com mais ou menos remorsos associados!). É preciso começar devagar, numa progressão (por vezes, mais lenta do que idealizamos) do mais simples para o mais complexo. Já há muitos tutoriais disponíveis (em revistas ou online), mas eis alguns defeitos relativamente comuns a alguns desses projetos de iniciação à costura:
1. Sendo esteticamente bonitos, ou tecnicamente complexos (permitindo, assim, desenvolver uma série de competências), resultam em objetos pouco práticos ou úteis para o dia-a-dia;
2. Sendo relativamente simples, são pouco desafiantes, sendo por isso difícil manter um nível de motivação constante, vital para a boa conclusão do projeto; 

3. São demasiadamente prescritivos, deixando pouca margem para a inventividade.
Penso que este projeto está ao alcance de qualquer principiante (uma vez que nem eu própria sou excecionalmente experiente na costura!) que tenha à sua disposição materiais de boa qualidade, e uma boa dose de paciência e determinação! Facilmente poderá ser transformado e complexificado, por quem tenha mais traquejo; deixo algumas sugestões nesse sentido, no final do post!

Primeiro passo: tirar as medidas e cortar o tecido! Como o saco é reversível (ou seja, na verdade, faremos dois sacos, que depois uniremos), precisamos de quatro retângulos de tecido para o corpo do saco, mais dois para as alças, e mais um para o atilho. Não quero que o saco fique muito mais largo do que aquele que me serviu de molde, pelo que vou cortar à medida, deixando apenas 1cm-1,5cm de margem de costura de cada lado e em cima, e 10cm em baixo (para o fundo + margem de costura). Fico, assim, com quatro retângulos, idênticos dois a dois, com 50cm x 35cm.


Como já expliquei, quero as alças ligeiramente mais curtas, por isso faço pela medida das atuais, sabendo que vou perder 2cm-3cm de comprimento com a margem de costura, durante a aplicação, o que me parece suficiente. A largura das alças não quero mudar (há que ter apenas em conta a margem de costura). Fico, assim, para as alças, com duas tiras de 54cm x 6cm.


Para o atilho, precisamos de uma tira estreita e comprida, costurada de forma a ficar resistente (pois vai ter que aguentar o esforço de atar e desatar). Corto um retângulo com 60cm x 4 cm.

Segundo passo: fazer as alças e o atilho! Podem começar por fazer o corpo do saco, mas pessoalmente prefiro deixar as peças mais pequenas (ou acessórias) prontas primeiro, para não interromper depois o fluxo do projeto, e também porque, exigindo mais minúcia, é sempre preferível dedicarmo-nos a elas quando estamos com mais disposição! 

2.1. Vamos costurar as alças e depois virá-las. Neste caso, como o tecido escolhido é igual dos dois lados, é indiferente de que lado se cose. No caso de um tecido estampado, a costura deve ser feita do avesso, para que fique escondida no interior, depois de dada a volta. Nesse caso, dobra-se o tecido a meio, longitudinalmente, com o "lado bonito" do estampado virado para dentro. Em qualquer caso, utilizamos o ferro de engomar para vincar a dobra, e auxiliamo-nos de alfinetes para garantir que o tecido não sofre desvios durante a costura. Depois de cosidas as duas alças, vamos dar-lhes a volta, com a ajuda de um alfinete-de-ama, um clip, uma caneta, uma tesoura de pontas redondas... enfim, o que vos der mais jeito! É importante salientar que quanto mais estreita a tira, e quanto mais espesso o tecido, mais lenta e laboriosa será a viragem. Armem-se de toda a vossa paciência, ponham uma banda sonora relaxante, e mãos à obra! Concluída a viragem, usem o ferro para achatar as costuras.



2.2. Vamos fazer o atilho, que depois aplicaremos no saco já concluído. Com a ajuda do ferro, dobramos a tira ao meio, no sentido longitudinal. Depois de encontrado o meio, dobramos os dois lados para dentro, alinhando com o centro. Voltamos, depois, a dobrar ao meio, com as duas abas viradas para dentro da tira, vincando novamente com a ajuda do ferro. Esta tira que obtemos é a chamada tira de viés, que se pode também usar para debruar (viés mais largos são usados como cós para cinturas, colarinhos e punhos, por exemplo). Costuramos, depois, a toda a volta da tira (os quatro lados), bem junto à margem, com o cuidado de colocar as pontas para dentro, antes de coser as extremidades mais estreitas.



Terceiro passo: vamos coser o corpo do saco, que, como já expliquei, consiste, na verdade, em dois sacos unidos entre si. Para simplificar, e clarificar a distinção entre as duas peças para efeitos do processo de costura, vou utilizar os termos "saco" e "forro". Para coser o saco, vamos sobrepor dois dos retângulos cortados para esse efeito (em caso de tecidos estampados, com os "lados bonitos" enfrentados, e os avessos para fora). Fixamos as peças com a ajuda de alfinetes, de forma a ficarem bem alinhadas entre si, e cosemos três dos quatro lados (em "U"), a cerca de 1cm-1,5cm da margem. Para coser o forro, utilizamos o mesmo procedimento, exceto no seguinte: em baixo (na base do "U") deixamos um buraco, ou seja, uma parte sem coser, mais ou menos a meio, com cerca de 5cm-10cm; é por esse buraco que depois daremos a volta à peça terminada!

Quarto passo: vamos dar uma terceira dimensão ao saco, ou seja, vamos fazer-lhe um fundo. Para isso, temos que encontrar as esquinas do saco e do forro que fizemos no passo anterior. Alinhamos perfeitamente ambas as costuras laterais com a costura inferior, com a ajuda de alfinetes. Marcamos, depois, um triângulo (em cada esquina) com cerca de 5cm de altura (ou 10cm de base), e costuramos ao longo da base desse triângulo. Com a tesoura, aparamos o excesso de tecido a cerca de 1cm-1,5cm da costura que acabámos de fazer, e rematamos o sobrante com uma costura em zig-zag (para garantir a resistência do fundo do nosso saco). Repetimos esse procedimento quatro vezes, ou seja, para as duas esquinas do saco e para as duas esquinas do forro. Todo este processo é feito com as duas peças (saco e forro) do avesso, para que, depois de pronto, todas estas costuras fiquem escondidas.


Quinto passo: vamos aplicar as alças! Para saber onde devemos fixá-las, vamos dar a volta ao saco (com as costuras para dentro, e no caso dos tecidos estampados, com o "lado bonito" virado para fora), dobrá-lo ao meio, e novamente ao meio. Com a tesoura, fazemos um pequeno corte no sítio onde as peças se encontram. Utilizando o mesmo método (mas dobrando apenas uma vez ao meio), vamos determinar a metade da largura das alças. Alinhamos, depois, esses cortes entre si, fixando as alças ao saco com a ajuda de alfinetes. Ao coser as alças ao saco, este deve "entrar na máquina" aberto, ou seja, cosemos as duas pontas de uma alça a um dos lados, e as duas pontas da outra ao lado oposto, com cuidado para não fechar a "boca" do saco no processo! Para garantir que as alças ficam bem fixas, podemos utilizar o pedal de retrocesso da máquina (utilizado para rematar as costuras) várias vezes, voltando ao início da costura e deixando correr até ao final da mesma (fiz esse processo 3-4 vezes).


Sexto passo: vamos unir o forro ao saco! Com o forro do avesso e o saco do direito (ou seja, com os "lados bonitos" das duas peças enfrentados), enfiamos o saco dentro do forro, com o cuidado de que as alças fiquem também para dentro. Fazendo coincidir bem as costuras laterais de saco e forro, utilizamos alfinetes para alinhar e fixar os topos das duas peças. Com o saco aberto, cosemos a toda a volta da "boca" do saco (deixei uma margem de cerca de 2cm).

Sétimo passo: vamos dar a volta ao saco! Utilizando o buraco que deixámos por coser no fundo do forro, vamos ‒ com cuidado! ‒ dar a volta a toda a peça. Primeiro, puxando o saco, e depois introduzindo o forro dentro do saco. Fechamos o buraco com uma costura em zig-zag (à máquina), ou com o ponto invisível ou cego (à mão). Para garantir que o forro e o saco ficam bem unidos, e que um e outro só são visíveis à vez (ou seja, que a costura não rola), podemos coser a toda a volta da "boca" do saco, já depois de fechado e introduzido o forro.



Oitavo (e último) passo: vamos aplicar o atilho! Esta última etapa já não é, a meu ver, fundamental para a estrutura da peça, pelo que será opcional, mas certamente útil para quem, como eu, queira transportar o saco bem arrumado, dentro da mala, à mão para qualquer emergência! Embora o saco, depois de terminado, seja completamente reversível durante o uso, o atilho é aplicado numa das faces, o que significa que, depois de usado, ele deve ser dobrado e atado sempre com a mesma face visível. Marco o local onde vou coser o atilho, determinando o meio da largura de uma das faces do saco. Seguindo essa linha, e a cerca de 2cm-3cm do fundo do saco, fixo o atilho com a ajuda de um alfinete (deixando mais ou menos metade do comprimento do atilho para cada lado desse ponto de fixação). Para garantir a resistência do atilho, utilizei uma costura em zig-zag, em retângulo.


E está pronto! Para fechar, dobra-se o saco em três, no sentido longitudinal, com as alças viradas para dentro, e enrola-se da "boca" para o fundo. Fechado, as suas dimensões aproximadas são de 12cm x 7cm (as dimensões poderão variar consoante a espessura dos tecidos escolhidos).


É um projeto rápido e simples, que, ao possibilitar bons resultados com alguma facilidade, nos permite ganhar alguma confiança e destreza! Não indiquei grandes especificações relativas à costura à máquina porque é possível fazer tudo isto sem máquina de costura; embora, claro, exija mais esforço e mais tempo.


Aqui ficam, tal como prometido, algumas sugestões de transformação para este projeto: 

1. Aplicar um fecho de correr, botão(ões), mola(s) de pressão ou cordão (os tote bags não têm, por definição, sistema de fecho);
2. Fazer uma alça da cor do saco e outra da cor do forro; 
3. Em vez de usar peças inteiras para o corpo do saco, recorrer a técnicas de quilting ou patchwork, e/ou aplicação de rendas, fita grega/espiguilha, barras de bordado inglês com passa-fita, etc.; 
4. Aplicar um atilho no saco e outro no forro, de forma a que seja possível fechar em qualquer configuração;
5. Aplicar um bolso numa das faces do saco, ou em ambas.
 Boas costuras!

sábado, 4 de abril de 2015

A Cristiana e a "Saudade"

Já conheço a Cristiana há tantos anos, que já lhes perdi a conta ‒ mas serão, certamente, quinze ou mais! Nunca fomos colegas de escola, e só vivemos na mesma cidade (o Porto) por um período relativamente curto. Conhecemo-nos por intermédio de amigos em comum, e ao longo de todo este tempo, o contacto foi sendo intermitente ‒ tenho que agradecer ao Facebook por me manter a par das muitas aventuras em que a Cristiana se vai metendo, porque, às vezes, é difícil manter-me atualizada: é, sem dúvida, uma das pessoas mais dinâmicas, criativas, desenrascadas e bem-dispostas que já conheci!

Pedi-lhe que me respondesse a algumas perguntas sobre o seu percurso, e sobre o seu grande projeto ‒ a "Saudade - Reciclagem de mobiliário" ‒, e nem hesitou! Gente generosa e de bem com a vida é mesmo assim!

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Joana (J) - Como é que o restauro/conservação entrou na tua vida?

Cristiana (C) - A conservação e restauro entra na minha vida graças a uma professora do secundário, professora da Oficina de Artes, que nos mostrou o que era a conservação e restauro, e levou uma peça de cerâmica para as aulas. Desde logo, fiquei bastante interessada! Tanto que, depois, concorri para uma escola apenas com esta hipótese: Instituto Politécnico de Tomar, Escola Superior de Tecnologia, Curso de Conservação e Restauro! Se não entrasse aqui, não queria entrar em mais lado nenhum! Foi exactamente naquela aula que percebi o que queria ser; não havia volta a dar!


J - Como é que nasceu a "Saudade"? O que te levou a escolher este nome?

C - A Saudade nasce da necessidade de trabalhar para pagar contas! Pela primeira vez desde que tinha começado a trabalhar, tinha ficado sem trabalho; estávamos no início do verão de 2012. Curiosamente, nasce do acaso: uma amiga tinha-me arranjado trabalho a pintar os interiores da casa da mãe; sim, pintura de casas! Mas os meus serviços logo se estenderam ao aconselhamento de cores, decoração e aproveitamento de mobílias que eles iriam deitar fora! Disse-lhes: "Por que não experimentarmos pintar estes móveis, em vez de os deitarem fora? Pintamos com umas cores giras e alegres". A ideia agradou-lhes e assim comecei! Eu já estava habituada, em casa, há muitos anos, a reciclar os móveis velhos! Nessa mesma altura, comecei a ver boas peças de mobiliário à beira do lixo e comecei a recolher... E pensei: "Por que não começar a recuperar mobiliário velho dando um novo visual?". O vício de recolher móveis nunca mais parou, ao ponto de eu ir de noite fazer rondas pela minha zona, para ver se encontrava alguma coisa! E encontrava...! O nome surge por duas razões: o meu primeiro grande cliente foi um vizinho que tinha uma quinta com imensas peças de antiquário guardadas, e me pediu para restaurar e reciclar conforme cada caso, e a quinta dele tinha o nome de Saudade. Este facto juntou-se a outro: o meu primo, que é web designer, começou a estudar uma imagem para a minha empresa que antes era a "Cris mudaste-me a casa", mas obviamente que este nome teria de ser mudado, se isto ia tornar-se um negócio sério e disse-me que o nome ideal para a minha empresa era Saudade, por causa da vida nova que dava a móveis velhos, cheios de memórias de outros tempos... Daí a saudade... E assim foi! Achei perfeito!


J - Se tivesses de escolher, preferias dedicar-te exclusivamente ao restauro/conservação de arte, ou à reciclagem de mobiliário?

C - É uma pergunta extremamente difícil, contudo consigo respondê-la de imediato: reciclagem de mobiliário. E esta só ganha ao restauro, porque este, neste momento, implica andar todos os fins de semana de mochila às costas para um lugar qualquer, muitas das vezes para sítios ermos onde só existe a capelinha. Sempre que há um trabalho novo de três ou quatro meses, normalmente lá vou eu de casa às costas. Inicialmente tem a sua piada; é maravilhoso conhecer o país como conheço, muito graças ao restauro, mas ao fim de uns anos começa a cansar... Depois há a parte deontológica da profissão de conservador-restaurador, onde não há lugar para a criatividade, ao contrário do que muitas pessoas pensam... Não somos artistas! A recuperação de mobiliário ("reciclagem" começa a ser um termo em desuso) dá-me toda essa liberdade criativa! Mas, de vez em quando, tenho de me dedicar ao restauro, pois o bichinho está sempre cá!


J - Gostas mais de trabalhar sozinha ou de partilhar o teu espaço de trabalho? Por quê?

C - Prefiro trabalhar sozinha! Tenho horários estranhos; prefiro trabalhar à noite, por exemplo, e detesto ter de conciliar a minha inspiração criativa com os horários de outra pessoa! Por outro lado, se alguma coisa corre mal, eu sou a única a quem posso culpar...! [risos]



J - Sentes que o trabalho que fazes potencia a tua criatividade? De que forma?

C - Claro que sim! Mesmo quando os clientes já têm uma ideia predefinida de como querem uma peça de mobiliário, eu tento sempre dar o meu toque pessoal, ou por exemplo superar desafios técnicos propostos pelos clientes! Exemplo disso, são os tampos em acrílico feitos para umas cadeiras! Nunca tinha trabalhado com acrílico, e mesmo sem saber, disse logo que faria o trabalho! O gozo está mesmo em magicar e solucionar problemas, muitas vezes de forma criativa!



J - Fala-me sobre dois projetos que te tenham dado especial prazer.

C - Um dos projetos que me deu mais prazer foi o de um hotel em Lisboa, o Emporium Lisbon Suites, no qual, com as diretrizes da designer Francisca Lima Mayer, tive de fazer, desde a escolha e compra das peças, até à finalização de montagem no Hotel. Adorei participar no projeto decorativo e conhecer duas das clientes mais queridas que tive até hoje! Um outro projeto que me deu muito prazer, foi o tal das cadeiras com assento em acrílico, pois tive de estudar as soluções e fazer uma aprendizagem autodidata de como cortar acrílico, como o finalizar. E digamos que acabei por inovar no modo de corte, e inventar uma forma ainda mais expedita de cortar acrílico do que aquelas que se ensinavam na web!


J - Desde que começaste a trabalhar nesta área, o que de mais inesperado (positivo ou negativo) já te aconteceu?

C - Com a Saudade, aprendi que felizmente para compensar dois casos de clientes que correram menos bem existem pessoas que, sem me conhecerem de lado nenhum, acreditam nas minhas capacidades e me dão total liberdade para eu renovar peças suas, depositando uma enorme confiança, que eu tento sempre retribuir da melhor forma! O mais inesperado é mesmo os elogios sobre o trabalho! Reconheço as minhas capacidades, mas por vezes os elogios ainda me surpreendem...! O mais inesperado que me aconteceu foi num trabalho que entreguei, em que eu achei que a finalização não correu como eu queria, e ia preparada para fazer uma atenção no preço, mas a cliente adorou e não aceitou essa atenção! Como diz a minha mãe, sou exigente demais comigo, e por vezes fico insatisfeita com resultados de técnicas novas que experimento, quando na verdade ficou bem feito! 


J - Qual é a melhor parte de trabalhar por conta própria? E a pior?

C - A melhor parte é o facto de eu gerir os meus horários, ter uma liberdade maior, até mesmo na criatividade! Não ter de dar satisfações constantemente é algo de que gosto bastante...! [risos] Por outro lado, os encargos legais são muito pesados, a instabilidade de um ordenado é complicada de gerir psicologicamente, e trabalho três vezes mais do que se estivesse num trabalho "normal" com patrão. É preciso uma disciplina muito grande, para gerir horários e não acabar por trabalhar fins de semana inteiros (coisa que ainda não consigo proibir-me).




J - Que projeto estás ansiosa que apareça?

C - Estou ansiosa que me apareça um cliente com as mobílias todas de uma casa para renovar, e que me dê 100% de liberdade para eu as decorar e renovar como quiser! Seria um sonho!


Decoração da Zona VIP do Festival MEO Sudoeste 2014

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Contactos:
Saudade - Reciclagem de Mobiliário (Cristiana Cera)
Telefone: +351919180817